14 abril 2026

TST homologa acordo coletivo dos empregados(as) da HU Brasil e encerra greve após 10 dias de intensa mobilização


Após dez dias de mobilização em todo o país, os empregados e empregadas da HU Brasil (antiga Ebserh) encerraram a greve nacional com a assinatura do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027. O acordo foi formalizado no dia 8 de abril de 2026, em audiência de conciliação realizada no Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília, com a mediação da Corte e participação das entidades representativas da categoria, entre elas a Condsef/ Fenadsef. 

O movimento paredista teve início no dia 30 de março, após o esgotamento das negociações entre trabalhadores e empresa, especialmente diante da ausência de proposta econômica que contemplasse ganho real de salários e do não cumprimento de compromissos firmados em acordos anteriores. 

Negociações marcadas por impasse e pressão do calendário eleitoral 

As tratativas para o ACT 2026/2027 foram iniciadas ainda em fevereiro, com a apresentação antecipada da pauta de reivindicações pelas entidades sindicais, incluindo os pleitos econômicos, numa tentativa de garantir tempo hábil para negociação antes das limitações impostas pelo calendário eleitoral. 

A partir de abril de 2026, com base no que estabelece a legislação eleitoral (Lei nº 9.504/1997), ficaria substancialmente comprometida a possibilidade de concessão de reajustes com ganho real, o que exigia celeridade nas negociações. 

Mesmo diante desse cenário, a empresa manteve postura omissiva quanto à apresentação de proposta econômica concreta ao longo de diversas rodadas de negociação. Reuniões realizadas nos dias 12 e 24 de março, inclusive no âmbito do TST, não resultaram em avanços, e encontros previamente agendados chegaram a ser cancelados pela própria empresa, agravando o impasse. 

Diante da ausência de respostas efetivas, a categoria deliberou, em assembleias realizadas nos dias 25 e 26 de março em todo o país, pelo estado de mobilização, que evoluiu para a deflagração da greve nacional no dia 30 de março. 

Greve ganha dimensão nacional e mobilização se intensifica 

Durante os dias de paralisação, trabalhadores de diversas unidades hospitalares do país se mantiveram mobilizados de forma contínua, com realização de assembleias, atos públicos, reuniões e articulações com entidades nacionais. 

No Ceará, a mobilização teve como principal ponto de concentração as chamadas “ilhas” do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (CHUFC), reunindo trabalhadores de diferentes setores em um espaço permanente de organização coletiva. 

A greve foi marcada por reivindicações centrais como: 

  • ganho real de salário, diante de perdas acumuladas estimadas em cerca de 26% desde 2014; 
  • implantação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS); 
  • melhorias nas cláusulas sociais; 
  • valorização profissional e fortalecimento do diálogo institucional. 

Com o avanço do movimento, a empresa ingressou com dissídio coletivo no TST, que passou a mediar formalmente as negociações. Durante esse período, foi determinada a manutenção de percentual elevado de trabalhadores em atividade (80%), buscando conciliar o direito de greve com a continuidade dos serviços essenciais de saúde. 

Mediação no TST e desfecho do movimento 

Nos dias 7 e 8 de abril, o TST conduziu novas rodadas de mediação, nas quais a empresa reapresentou sua proposta, com ajustes em relação às versões anteriores. 

A proposta foi encaminhada para deliberação nas bases sindicais em todo o país. No Ceará, a assembleia realizada no CH-UFC deliberou pela rejeição, refletindo a insatisfação de parcela significativa da categoria, especialmente em relação à ausência de ganho real e à falta de avanços concretos no PCCS. 

No entanto, no consolidado nacional, a maioria dos estados aprovou a proposta, autorizando a assinatura do acordo e o encerramento da greve. Principais pontos do ACT 2026/2027 O acordo firmado estabelece: 

  • reajuste salarial e de benefícios de 100% do INPC, acumulado referente ao período de 1º de junho de 2025 a 31 de maio de 2026 a partir de 1º de junho de 2026; 
  • manutenção das cláusulas do ACT 2024- 2026; 
  • inclusão de 14 novas cláusulas sociais negociadas; 
  • em relação aos dias parados haverá 50% de abono e 50% de compensação; 
  • Data-base de 1º/06/26 a 31/05/27. 

Entre as novas cláusulas sociais, destacam-se avanços importantes voltados à proteção dos trabalhadores, como medidas de prevenção e combate ao assédio, garantias relacionadas à maternidade e proteção a trabalhadores em situação de vulnerabilidade, além de melhorias nas condições organizacionais do trabalho nas unidades hospitalares. 

PCCS: o principal ponto de tensão da negociação 

O Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) foi, sem dúvida, o tema mais sensível de toda a negociação e o principal fator de insatisfação em diversos estados. 

Embora o acordo registre avanços pontuais na cláusula que trata do desenvolvimento na carreira, o PCCS não foi implementado. A empresa informou que o plano não obteve aprovação junto à Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST), comprometendo-se a recorrer da decisão e apresentar a tabela do plano em prazo posterior. 

Na prática, isso significa que uma das principais reivindicações históricas da categoria segue em aberto. O PCCS é visto pelos trabalhadores como instrumento fundamental para corrigir distorções salariais, estruturar a progressão na carreira e garantir maior valorização profissional. 

A ausência de sua implementação imediata gerou intenso debate nas assembleias, mas o Sintsef-CE garante que esta será uma pauta prioritária para a Condsef/Fenadsef. 

Organização da greve em Fortaleza evidencia força da base 

Em Fortaleza, o movimento grevista foi marcado por forte organização e participação da base. Durante todo o período, trabalhadores e trabalhadoras estiveram mobilizados nas unidades do Complexo Hospitalar da UFC, mantendo atividades permanentes de articulação, debate e construção coletiva. 

Avanço na organização da categoria 

Para além da avaliação sobre o que foi conseguido nas cláusulas econômicas e sociais, a greve trouxe um ganho que não pode ser mensurado em índices ou tabelas: o fortalecimento da organização coletiva dos trabalhadores. 

O Sintsef-CE desempenhou papel fundamental durante todo o processo, atuando de forma permanente na organização e sustentação do movimento. Foram mobilizados dirigentes, equipes de comunicação e assessoria jurídica, garantindo acompanhamento contínuo das negociações e suporte direto à categoria. 

Durante os dias de paralisação, o sindicato estruturou o movimento com a instalação de tendas de apoio, distribuição de lanches, organização de materiais como faixas, cartazes e pirulitos, além de assegurar presença constante nas unidades hospitalares. 

Também foram realizadas assembleias, reuniões presenciais e virtuais, orientações jurídicas detalhadas e envio de representantes a Brasília para acompanhamento direto das negociações no TST. 

Como resultado desse processo, a entidade saiu ainda mais fortalecida, com a ampliação de sua base a partir da filiação de novos trabalhadores, que reconheceram a importância do sindicato na defesa de seus direitos. 

A categoria conquistou, assim, uma vitória que nenhum acordo pode substituir: a consolidação de sua capacidade de luta.